Sinais de risco em aplicativos de encontro que você precisa conhecer!

Guilherme Arruda

Aplicativos de relacionamento se consolidaram como um dos principais meios para conhecer novas pessoas. Mas, com o aumento do uso, também cresceu o número de golpes que exploram esses ambientes digitais. No Brasil e em outros países, criminosos têm recorrido à técnica de engenharia social, manipulação emocional e até deepfakes para enganar usuários e obter dinheiro, dados pessoais ou acesso a contas.

As perdas com golpes amorosos atingiram níveis recordes nos últimos anos, com dados da Federal Trade Commission (FTC) revelando que, apenas em 2021, os consumidores americanos perderam US 547 milhões. No Brasil, pesquisas recentes indicam que 1 em cada 5 usuários de aplicativos de namoro já foi alvo de fraude online, e a maioria desses casos resultou em prejuízo confirmado.

Esses golpes começam raramente de forma explícita. Em geral, seguem um padrão previsível, que pode ser identificado a partir de alguns sinais de alerta que vamos apresentar nesse artigo.

 

Como funcionam os golpes em aplicativos de relacionamento: o modus operandi por trás dos sinais de alerta

Investigações jornalísticas e alerta de autoridades na América Latina mostram que golpes em aplicativos de relacionamento não acontecem de forma aleatória. Eles seguem um roteiro bem definido, que começa no ambiente digital e pode evoluir para prejuízos financeiros, roubo de dados e até violência física.

1. Perfis com poucas informações ou imagens genéricas

Golpistas costumam criar perfis superficiais, com poucas fotos, imagens genéricas ou informações vagas. A estratégia permite iniciar conversas sem levantar suspeitas imediatas e facilita o descarte rápido do perfil caso seja denunciado.

Um caso detalhado em reportagem do G1 mostra como perfis falsos em redes sociais e aplicativos podem enganar vítimas com histórias de amor e terminar em prejuízos financeiros e emocionais extremamente graves. O caso mostra como a combinação de perfil com imagens reais (mas mal utilizadas), pouca verificação de identidade e histórias emocionalmente envolventes pode levar vítimas a tomar decisões que acabam em prejuízo financeiro e até sofrimento psicológico.

2. Declarações emocionais intensas logo no início

Golpes românticos, nos quais o criminoso demonstra sentimentos intensos logo nos primeiros dias de conversa, não são raros. Pelo contrário: essa é uma das estratégias mais comuns para acelerar a construção de confiança. Declarações de amor precoce, promessas de relacionamento sério e planos de futuro surgem rapidamente, criando um vínculo emocional artificial.

Em muitos casos documentados, após esse envolvimento inicial, surgem histórias que despertam empatia imediata, como doenças, acidentes, ferimentos graves ou até supostas prisões. É nesse momento que, após a vítima acreditar que está em um relacionamento real, o golpista começa a pedir dinheiro, alegando enfrentar um problema urgente e pessoal.

Esse tipo de abordagem não é pontual. Segundo uma pesquisa divulgada pela CNN Brasil, aplicativos de relacionamento se tornaram o principal alvo de fraudes digitais no país, justamente por explorarem relações de confiança. O levantamento aponta que 27% dos brasileiros já foram alvo de algum tipo de fraude digital, e que golpes baseados em manipulação emocional estão entre os mais recorrentes nesses ambientes.

 

3. Pressão para levar a conversa para fora do aplicativo

Depois que o contato inicial é estabelecido, muitos golpistas passam a insistir para que a conversa saia rapidamente do ambiente do aplicativo de relacionamento e migre para outras plataformas, como WhatsApp, Telegram ou e-mail. Esse movimento não é casual.

Ao retirar a interação do aplicativo, o criminoso evita mecanismos de segurança, moderação e denúncia oferecidos pela plataforma, além de ganhar mais controle sobre o ritmo da conversa. Fora do aplicativo, também se dificulta rastrear o histórico da interação ou recuperar provas em caso de golpe.

No Brasil, esse padrão aparece em diversos casos documentados. Existem diversas situações em que vítimas foram atraídas por aplicativos de namoro, convencidas a continuar a conversa fora da plataforma e, posteriormente, acabaram vítimas de extorsão, roubo ou outros crimes após encontros presenciais. Esses casos levaram inclusive a alertas consulares sobre os riscos de encontros marcados por meio de aplicativos de relacionamento.

Esse padrão foi documentado em São Paulo, onde autoridades afirmaram que 9 em cada 10 sequestros após encontros começaram por meio de perfis falsos em aplicativos de namoro.

 

4. Histórias inconsistentes e criação de situações de urgência

Depois que a confiança já foi estabelecida e a conversa saiu do aplicativo, muitos golpes evoluem para narrativas cada vez mais instáveis. O perfil começa a apresentar versões diferentes sobre trabalho, localização ou rotina, ao mesmo tempo, em que surgem problemas inesperados que exigem uma solução imediata.

Essas histórias costumam envolver bloqueio de contas bancárias, dificuldades para receber dinheiro, custos médicos inesperados ou oportunidades que “não podem esperar”. O elemento central aqui é a urgência: o golpista cria a sensação de que a decisão precisa ser tomada rapidamente, antes que a vítima tenha tempo de refletir ou buscar orientação.

Esse padrão é recorrente em golpes românticos documentados no mundo, nos quais a pressão emocional e o senso de emergência são usados como ferramentas de engenharia social para induzir transferências financeiras ou o compartilhamento de informações sensíveis.

Na França, uma mulher teve prejuízos estimados em cerca de R$ 5 milhões após ser enganada por golpistas que usaram indevidamente a imagem do ator Brad Pitt. Os criminosos se passaram pelo artista e alegaram que ele precisava de ajuda financeira para custear um suposto tratamento renal, afirmando que suas contas bancárias estariam bloqueadas em razão do divórcio com Angelina Jolie.

 

5. Pedidos de dinheiro ou “oportunidades” financeiras

Com a confiança emocional já estabelecida, o golpe entra em sua fase mais direta. O criminoso passa a pedir dinheiro, seja como “ajuda temporária”, seja como parte de uma suposta oportunidade financeira. Os pedidos variam: pagamento de despesas médicas, taxas para liberar heranças, custos de viagem ou investimentos apresentados como seguros e lucrativos.

Em muitos casos, o discurso é cuidadosamente construído para que o pedido pareça razoável e urgente. A vítima não enxerga a transferência como um golpe, mas como um gesto de apoio a alguém com quem acredita manter um relacionamento legítimo. Essa é uma das etapas mais recorrentes nos golpes românticos e, também, a que gera os maiores prejuízos financeiros.

 

O que fazer diante desses sinais?

Reconhecer os sinais de alerta é o primeiro passo para evitar golpes em aplicativos de relacionamento, mas não é o único. Diante de qualquer comportamento suspeito, o ideal é interromper a conversa, não compartilhar informações pessoais ou financeiras e utilizar os canais de denúncia das próprias plataformas.

Também é recomendável desconfiar de pedidos de dinheiro, investimentos ou favores financeiros, mesmo quando acompanhados de histórias emocionais convincentes. Em ambientes digitais, a construção de vínculos pode ser rápida, mas a verificação da identidade do outro lado deve ser sempre criteriosa.

À medida que golpes amorosos se tornam mais sofisticados e passam a incorporar recursos como inteligência artificial e deepfakes, a atenção do usuário se torna uma camada essencial de proteção. Em aplicativos de relacionamento, onde confiança e emoção caminham juntas, informação e cautela seguem sendo os principais aliados para evitar que um match se transforme em prejuízo.